Pois é… minha infância foi turbulenta, difícil e marcante. Além de toda a dificuldade que eu tinha em entender o porque eu era tão diferente das outras pessoas e porque era tratado como tal eu me sentia uma criança cheia de sonhos, vontades e muito expôntanea. Sempre tive facilidade com artes, desenhos, teatrinhos na escola, adorava literatura e sempre me interessei por muitas coisas. Teve uma época que tive uma fixação pela Ariel, pequena sereia da Disney e desenhava ela por toda a casa. Adorava todas as princesas da Disney, adorava as vestidos, sabia tudo sobre suas roupas e como desenhá-las e todos deviam perceber, é claro. Sempre fui deste modo e não saberia ser outra coisa. Havia várias tardes em que eu ficava sozinho em casa rapidamente quando voltava da escola e somente ficava com a empregada e então eu corria na sapateira da minha mãe e pegava os seus sapatos de salto e ficava andando pela casa. Isso sempre foi uma rotina. Adorava!
Um dia maravilhoso foi quando minha irmã mais velha havia mandado fazer o seu vestido de primeira comunhão na costureira e quando voltei da escola, só estava a empregada em casa e fui correndo até o quarto da minha irmã e lá ele estava… Envolto em um saco plástico transparente no cabide, havia acabado de ser entregue. Na mesma hora quis experimentar mas fiquei com medo rasgar ou danificar então não provei. Mas era como um sonho… parecia um vestido de princesa exatamente como uma Cinderella. Jamais vou esquecer, ele tinha mangas fofas, inteiro bordado e com a saia rodada, era lindo demais.
Outra constante era quando estava sozinho, correr no banheiro da minha mãe a abrir seus estojos de maquiagem… eu não pintava o rosto exatamente, porque não tinha este conhecimento e nem sabia como fazê-lo mas ficava colocando o dedo em todas aquelas cores e adorava o perfume das maquiagens… ficava sonhando em pintar o rosto mas não tinga coragem. A única coisa que fazia era passar batom nos lábios, era uma experiência maravilhosa. Trancava a porta do banheiro e ficava horas e horas mexendo em tudo o que podia. Alguma vez ou outra minha mãe percebeu e dava umas como: – Você andou bagunçando meus sapatos? ou então: – Mexeram nas minhas coisas do banheiro, quem foi?
Quando lembro destas tardes tenho saudade, porém por outro lado, sinto uma solidão enorme… pois volta aquela sensação… Sempre pelos cantos da casa, me escondendo, me trancando, andando sorrateiramente e sempre pegando os “restos” de minha mãe e minhas irmãs. Como uma sombra… para poder ter 5 minutinhos de liberdade, de verdade.
Fiquei extremamente tocada quando assisti a este filme. Confesso que é um filme bobo, de adolescente… mas as cenas do garotinho que supostamente tem um comportamento transsexual me deixaram arrepiadas. Me identifiquei e me apaixonei.